Vamos conversar mais sobre “Amor na Bandeira?”

Para quem se interessar, aqui vai o relato da conversa da semana passada, para que possamos prosseguir expandindo este diálogo.

Encontro realizado em São Paulo, 12/07/2016.*

Pelas frestas entre os prédios paulistanos podíamos ver de um lado o Cruzeiro do Sul, e do outro a Lua Crescente. Foram as primeiras observações de Kaká Werá quando se somou ao círculo cuidadosamente arrumado com velas e flores ao centro, pela anfitriã Isabela.

O propósito da conversa foi refletirmos sobre a proposta de incluir a palavra Amor na bandeira brasileira, uma antigo sonho que recentemente mobilizou um novo grupo de pessoas a somar forças para realizá-lo.

O convite foi feito com perguntas abertas e reflexivas: “Amor na bandeira: um sonho possível? Vale a pena investir esforços para levar adiante esta causa? Quais seriam os argumentos para isso?”. Alguns não esconderam a frustração com o tom convite, afinal “por que questionar algo sobre o qual não temos dúvidas”?

Sim, o convite poderia soar como um passo atrás.

Respondi que investir energias em um sonho desta envergadura, por mais que nos inspire a mergulhar de cabeça e a agir desde já, requer uma certa maturação. Há quase 20 anos indivíduos e grupos têm se mobilizado por esta causa, e não é à toa que o abaixo- assinado de apoio ao projeto de lei obteve baixa adesão até o momento.

Penso que faz sentido desenharmos um “novo começo” no qual possamos considerar este impulso de maneira abrangente, incluindo vários pontos de vista. Daí a opção por um encontro dentro da abordagem do “Vem pra Roda”, este movimento cidadão espontâneo que cria novos espaços de diálogo sobre o futuro do país.

A conversa seguiu os seguintes passos:

1. O círculo foi iniciado com uma rodada de “chegança”, na qual as pessoas apresentaram suas motivações para estar nesta roda; recontamos um pouco do que sabemos sobre esta história.
2. Em seguida, exploramos as razões pelas quais não valeria a pena levar o sonho adiante, trazendo à tona as nossas próprias dúvidas e as resistências que já identificamos e as que imaginamos que iremos enfrentar.
3. Ensaiamos respostas à pergunta “para que este sonho seja 100% meu, o que precisaria acontecer?” (inspirada na metodologia Dragon Dreaming).
4. Ao final da conversa, tivemos um “bônus” de dicas da Raquel Rosenberg sobre mobilização, em especial sobre o AMOR como componente pedagógico e mobilizador. E o encontro foi finalizado com uma canção e dança de uma tradição indígena brasileira, seguida de uma agradável surpresa.

Abaixo está uma síntese do que ouvi nesta conversa, em que procuro retratar os principais argumentos que se apresentaram, incluindo também algumas observações e reflexões posteriores ao encontro.

A Bandeira como símbolo: resistências e resgates do sentido.

Logo no início da conversa ficou evidente que esta causa enfrenta uma resistência imediata advinda do questionamento à própria Bandeira Nacional: uma parcela mais crítica da sociedade a associa com um símbolo de uma atitude nacionalista ultrapassada, ou ainda pior: do autoritarismo de uma ideologia positivista que, por sua vez, representa um conservadorismo retrógrado e militarista.

Mas, pelo que já aprendemos desta história, ainda incompleta, há fatos que a maioria de nós desconhece: havia entre os positivistas – e em especial no grupo que concebeu a bandeira – aqueles com um enfoque humanista, defensores do fim da escravidão e de combate às injustiças sociais. O positivismo teve um papel importante na consolidação de um ideal republicano em nosso país, e envolvia diversos espectros de pensamento.

Outra resposta mais contundente que emergiu no grupo foi que, longe de uma mensagem militarista, a bandeira brasileira é uma das poucas sem metáforas ou cores que remetam à guerra, à dominação ou à religião. Pelo contrário, é um símbolo inteiramente composto por elementos da natureza e dos céus. Como foi dito: é um símbolo cósmico!

Dias depois, refletindo mais sobre esta crítica à bandeira, pesquisando neste site, além de aprender que se trata da única no mundo que possui uma esfera celeste, encontrei ainda um argumento interessante que contesta os defensores da retirada do lema positivista: “Retirar a frase porque recorda uma filosofia cujo auge foi há 150 anos é como tentar apagar partes do passado. Certamente isso não nos ajudará a construir um futuro melhor.”

Muitos argumentos podem ainda ser agregados a ambos os “lados” deste diálogo. O interessante é observar como há desconhecimento sobre a real história e os significados da bandeira, o que por si só poderia justificar qualquer iniciativa de “re-apropriação” dos aspectos positivos deste símbolo.

Falar de Amor: um choque de paradigmas.

Já com respeito à palavra Amor, um dos primeiros pontos de reflexão, recordado pelo Amaury, foi que incluir o Amor na bandeira resgata não somente o princípio cunhado por Comte. O Amor fortalece a perna “manca” da tríade republicana: a da Fraternidade, sem a qual Liberdade e Igualdade não se realizam.

Para resgatar o significado deste gesto, Kaká nos contou um pouco da história do Sr. Bruno Silveira, que por muitos anos sustentou este sonho com apoio de um pequeno grupo de pessoas. Bruno acreditava que o Amor na Bandeira seria um gesto fundamental para que o país pudesse finalmente se encontrar consigo mesmo em sua diversidade. Sem Amor à sua pluralidade, nossa nação não conseguiria ir além da mera “tolerância com o diferente”; seria portanto a condição para engendrar o respeito, a convivência e o diálogo, necessários para que um outro futuro seja edificado por seus cidadãos.

Mas a palavra Amor encontra outras resistências consideráveis. A mais simples é de que a ideia foi (e ainda é) percebida como uma ingenuidade, uma utopia – e foi justamente este o motivo da não-adesão de muitas pessoas à esta causa nas iniciativas realizadas em décadas passadas.

Existem ainda outros “porque nãos” mais complexos. O mais recorrente é que falar de Amor ainda tem um quê de tabu: é percebido como assunto de mulher, de gays ou de religiosos. Ou como um tema romântico, para os amantes, os poetas, os artistas. Há ainda quem entenda que atualmente o Amor virou slogan dos partidos de esquerda.

Mas afinal, existe alguma definição de Amor que pode ser mais forte do que este tabu? Ou é algo maior do que qualquer conceito? Seria possível descrever o Amor “cientificamente”?

Sim, é verdade que em nosso imaginário coletivo o Amor virou um conceito apropriado, parcial, relativo. Pouco é compreendido em sua inteireza, como prática cotidiana, como uma qualidade de atenção à vida que extrapola as barreiras, medos e preconceitos.

Mas foi aqui que algumas palavras de Sofia deram o tom da conversa dali em diante: “os motivos que antes eu tinha para não levar adiante esta ideia se tornaram justamente os motivos para hoje defendê-la”. Ela se referia à sua própria mudança de opinião de uma causa “ingênua” para uma atuação necessária, de afirmação de um valor que se contrapõe a vícios que precisam ser superados em nossa cultura.

Resgatar a virtude do Amor, justamente por romper com alguns paradigmas que hoje nos colocam na situação crítica, para alguns tornou-se uma necessidade. Portanto, esta ideia pode ter evoluído de uma “ingenuidade” para uma iniciativa “ousada” e “corajosa”.

Esta narrativa nos levou ainda a identificar um terceiro tipo de resistência, que advém justamente daqueles que zelam por uma compreensão integral do Amor: “como podemos propor que algo tão nobre seja reduzido a uma palavra numa bandeira?”, nos provocou Denise.

Há quem argumente que existem muitas conquistas anteriores à inclusão do Amor em nosso imaginário, sem as quais não estaríamos prontos para absorver o seu real significado. Com receio de nos enredarmos em mais uma disputa de narrativas, “precisamos primeiro resolver a vida dos pobres, dos pescadores, dos ribeirinhos, etc” …

Lembro que alguém murmurou que uma coisa não exclui a outra, mas a conversa já evoluía em outra direção, e este ponto fica em aberto para aprofundarmos em outro momento.

Mas talvez aqui esteja uma chave para a continuidade desta reflexão: se há tantos motivos para que a palavra Amor enfrentar resistências, talvez mais do que almejarmos chegar a um consenso sobre o significado do que é Amor, podemos pensar sobre os efeitos possíveis que a própria tentativa incluir Amor na bandeira pode gerar.

Que diferença afinal poderia fazer este gesto de recolocar o Amor – com seus múltiplos significados – como tema de reflexão em nosso imaginário? Estaríamos investindo energias em uma boa ideia, mas cujo tempo não chegou? Seria possível empreendê-la de forma a não sucumbir à uma narrativa que deturpe o seu significado?

Amor na Bandeira: uma ideia cujo tempo chegou?

Nos recentes acontecimentos políticos do país estes dois elementos foram apropriados como símbolos da polarização: a Bandeira ficou de um lado do muro, e o Amor do outro. E ambos tiveram os seus significados distorcidos pelas circunstâncias de disputa pela qual passamos.

Como mostram diversas pesquisas, a maioria da sociedade não se identificou verdadeiramente com a narrativa de nenhum dos polos. Uma maioria silenciosa, ainda que pontualmente tenha aderido a um ou outro posicionamento, viu-se sem meios para expressar os seus reais anseios.

Mas no Vem pra Roda já elaboramos guias para conversar de política com os familiares e amigos, realizamos conversas sobre temas espinhosos e até realizamos um ato público de um beijo no muro do impeachment. “Nossa prática já era a de trazer Amor, por meio destas intervenções”, nos lembrou Mariana.
beijonomuro

Ato simbólico no “muro da esplanada”, na véspera da votação do impeachment.

Ficou entendido que o resgate do Amor já estava em pauta, e que portanto este novo passo nos parece um desdobramento natural dos esforços anteriores – deste e de outros movimentos, mesmo aqueles que silenciosamente resistem ao clima de guerra que se instalou no país.

E no andar da conversa já nem mais nos parecia importante responder se a hora é mesmo “agora”, raciocinando numa perspectiva analítica sobre a conjuntura nacional.

O propósito de resgatar o Amor parece-nos ter uma “atemporalidade”, que ficou evidente quando alguns expressaram seu entusiasmo com o “potencial amoroso” que está latente na cultura e na “alma brasileira”. É como se uma resposta natural para toda esta crise fosse reativar algumas virtudes inerentes que ficaram deixadas de lado. Séra que chegamos a um esgotamento da dinâmica bélica que tomou conta de nosso espaço afetivo, e que podemos antever a necessidade que Bruno Silveira vislumbrou deste reencontro do Brasil consigo mesmo?

Isto pode ser wishful thinking. Mas também pode não ser.

Lembremos que nós também podemos fazer a história acontecer: não faltam exemplos de como os pequenos grupos são o estopim de grandes mudanças. Estopim estes que só acontece quando algo reverbera profundamente nos corações daqueles que “levantam uma bandeira”.

E para que este sonho seja meu sonho …

Assim a conversa evoluiu para explorarmos o sentido que levar adiante este impulso faria para nós, independente da probabilidade de mudarmos a bandeira nas circunstâncias de curto e médio prazo.

Ouvimos então que, “para este sonho ser 100% meu”, seria preciso:

Afirmar o Amor enquanto prática. Reconhecer que Amor não é utopia, e que é muito mais que um sentimento ou conceito: o Amor se expressa em ação, e é esta ação que nos interessa cultivar.

Extrapolarmos o objetivo de promover uma mudança formal na bandeira: o sentido maior está em expressar o Amor em todos os seus sentidos como um assunto mais vivo em nosso cotidiano.

Compreender que se trata de uma contribuição global para a humanidade, e não apenas para os Brasileiros.

Assumirmos plenamente as consequências da transformação de paradigmas: se há resistências, as mesmas são nosso próprio objeto de transformação.

Ser realmente plural: que a iniciativa faça sentido para – e seja protagonizada por – um escopo muito amplo de pessoas, dos mais diferentes espectros políticos, sociais, religiosos e geracionais, sem que seja “puxado para nenhum lado ou partido”, como bem observou a Rachel Rosenberg.

Assumir que há um resgate histórico da prática de cultivar o Amor, que pode ser percebida como uma “semeadura de um fruto que colhemos a partir de séculos ou milênios de plantios e colheitas”, nas palavras de Rangel, que nos relembrou o papel dos trovadores no final da Idade Média.

Assumirmos que o Amor nos reconecta a uma dimensão espiritual da vida, que nos permita superar senso de superioridade dos homens para com a natureza e outras formas de vida.

Ao final, após trocarmos ideias sobre mobilização (estas anotações ficam para uma próxima conversa), optamos por não definir uma próxima reunião, ou mesmo um ritmo de encontros. Preferimos deixar o espaço livre para que surjam (ou não) iniciativas espontâneas daqueles que desejarem firmar e levar adiante este propósito.

Encerramos cantando uma canção indígena de amor guiada pelo Kaka Werá. Nos instantes após esta canção, um forte vento “desceu” do céu em espiral, chacoalhando as árvores, envolveu-nos por alguns instantes, apagou todas as velas e passou.

Perguntei ao Kaka qual era para ele o sentido daquela manifestação, e ele respondeu: este vento é para disseminar esta energia.

É este o propósito deste relato. Disseminar, espalhar as sementes que colhi deste encontro. Como um convite para que você se aproxime e possa agregar suas ideias, sentimentos e percepções.

Conte-me um pouco: você sente que tem algo a contribuir nesta conversa? Por favor compartilhe um pouco do que pensas: vale a pena investirmos esforços para levar adiante esta causa? Quais seriam os seus argumentos?

* Participantes: Mariana Brunini, Mariana Vasconcellos, Bruna Riscali, Isabela Prata, Kaká Werá, Sofia e Daniel, Amaury, Rangel Mohedano, Talita Montiel, Mario (?), Eduardo Rombauer, Denise Castro, Dalvinha Correa. Texto de Eduardo Rombauer ((https://eduardorombauer.com/2016/07/19/1010/))

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